Lula vence segundo turno marcado por “campanha do medo”, alerta fiscal e enxurrada de desinformação

Foto: reprodução do Instagram
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A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial de 2026 encerra uma das disputas mais polarizadas da história recente do país. Mais do que um debate programático sobre o futuro do Brasil, a reta final da corrida ao Palácio do Planalto foi definida pela exploração mútua do receio do eleitorado, pela desconfiança do mercado financeiro quanto à sustentabilidade dos gastos públicos e pelo uso intensivo de desinformação e inteligência artificial nas redes sociais.

A estratégia da “campanha do medo” e o voto por rejeição

Ao longo do segundo turno, a disputa presidencial ganhou contornos que a imprensa internacional, como o jornal argentino La Nación, classificou na cobertura repercutida pelo G1 como “a campanha do medo”, na qual tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro buscaram conquistar a fatia decisiva de indecisos apostando na rejeição ao adversário.

Do lado governista, a comunicação petista concentrou esforços na defesa da manutenção de programas de transferência de renda e no receio de que uma eventual gestão do PL representasse cortes de direitos trabalhistas e benefícios sociais. Do lado oposicionista, a campanha de Flávio Bolsonaro buscou capitalizar o desgaste econômico e a insatisfação com a condução do país — segundo levantamento divulgado pelo Congresso em Foco, 49,7% dos eleitores desaprovavam a forma como Lula administrava o Brasil às vésperas do pleito, contra 47% de aprovação.

O mesmo levantamento evidenciou o peso da rejeição e dos programas assistenciais na decisão do voto:

  • Voto antiadversário: Cerca de 22,1% do eleitorado afirmou votar principalmente para impedir a vitória do rival, índice que chegou a 26,3% entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro (para evitar a reeleição do petista) e a 18% entre os eleitores de Lula (para barrar o senador do PL).
  • Dependência de vitrines sociais: Apesar de 49,4% dos entrevistados avaliarem que o presidente esteve distante dos problemas cotidianos da população, programas financiados pelo Orçamento federal sustentaram a base governista — o Bolsa Família foi a ação mais lembrada espontaneamente (24,6%), seguido pelo Pé-de-Meia (7,8%) e pelo Minha Casa, Minha Vida (5,2%).

Contas públicas sob pressão e gastos milionários de campanha

O custo fiscal das promessas eleitorais e a trajetória da dívida pública estiveram no centro das críticas de economistas durante toda a campanha. Conforme reportagem da Folha de S.Paulo, o mercado financeiro manifestou receio de que os candidatos não apresentassem planos viáveis para estancar o crescimento das despesas obrigatórias e equilibrar as contas públicas.

Analistas ouvidos pelo UOL Economia apontaram que a reeleição de Lula amplia a cautela dos investidores em relação à condução fiscal, projetando pressão sobre o dólar, os juros futuros e os títulos públicos de longo prazo. A crítica central recai sobre o modelo adotado pelo governo petista, que priorizou o aumento da arrecadação em vez da contenção de gastos públicos para cumprir metas fiscais. Em contrapartida, embora parte do mercado apostasse que Flávio Bolsonaro daria maior ênfase ao controle de despesas e à redução de ministérios criados no terceiro mandato de Lula, especialistas também ponderaram ao UOL Economia e ao ND Mais que o candidato do PL não havia detalhado como executaria esse ajuste e que o próprio governo de Jair Bolsonaro encerrou o mandato anterior após flexibilizar o teto de gastos e expandir despesas.

Além do debate sobre o Orçamento da União, o uso de recursos públicos para financiar a própria máquina eleitoral atingiu cifras expressivas. Segundo levantamento do Poder360, com campanhas abastecidas prioritariamente pelos fundos Eleitoral e Partidário (mantidos pelos pagadores de impostos) sob um teto de R$ 133,4 milhões estipulado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE):

  • Campanha de Lula (PT): Acumulou R$ 118,4 milhões em receitas e declarou R$ 65,7 milhões em despesas parciais, concentrando gastos na estrutura tradicional de comícios, eventos de rua, materiais impressos e pesquisas, além de R$ 2,59 milhões em impulsionamento digital, segundo a revista Veja.
  • Campanha de Flávio Bolsonaro (PL): Arrecadou R$ 95,5 milhões e declarou R$ 74,6 milhões em gastos parciais, priorizando inteligência de dados, algoritmos e comunicação direcionada, liderando as despesas de impulsionamento nas redes sociais com R$ 7,45 milhões, de acordo com a Veja.

A indústria de fake news e a manipulação por IA

A atmosfera de medo foi amplificada por uma proliferação de notícias falsas e conteúdos manipulados por inteligência artificial que atingiram ambos os lados da disputa e exigiram repetidas verificações da imprensa e intervenções da Justiça Eleitoral:

  1. Boatos sobre cortes de benefícios e direitos trabalhistas: Na reta final, circularam vídeos adulterados por inteligência artificial e áudios falsos compartilhados por perfis alinhados ao PT alegando que Flávio Bolsonaro e sua equipe planejavam cortar aposentadorias, extinguir o 13º salário, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o programa Pé-de-Meia, além de impor trabalho obrigatório seis dias por semana, conforme documentado pelo ND Mais e pelo UOL Confere / Projeto Comprova. As checagens comprovaram que os materiais eram falsos: o plano de governo de Flávio previa manter programas sociais existentes, enquanto o candidato defendia publicamente a privatização de estatais — como os Correios — e uma jornada flexível alternativa à escala 6×1.
  2. Desinformação contra eleitores petistas e sobre o processo de votação: Em sentido oposto, o levantamento do ND Mais identificou a disseminação de imagens fora de contexto para associar eleitores do PT ao uso de tornozeleiras eletrônicas, pesquisas fraudulentas sem registro no TSE e boatos falsos de que a Justiça Eleitoral teria fixado dias diferentes de votação para eleitores de Lula e de Flávio Bolsonaro.
  3. Batalha judicial no TSE: O volume de desinformação levou a embates diretos na Corte Eleitoral. Em episódio reportado pelo UOL Notícias, a campanha de Flávio Bolsonaro chegou a acusar a Corregedoria do TSE de “complacência com a descarada disseminação de fake news” após o vaivém de decisões sobre a suspensão de canais digitais acusados de driblar filtros de moderação.

 

Passada a apuração das urnas, o resultado consolida o quarto mandato de Lula, mas deixa como herança imediata um país politicamente dividido, um Congresso atento e a cobrança urgente por respostas concretas na área fiscal após uma campanha dominada pelo embate de rejeições.

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