A poucos dias de um segundo turno decisivo, marcado para domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstra a dificuldade de separar a figura do chefe de Estado da do candidato à reeleição. Segundo revelou a jornalista Bela Megale, de O Globo, o petista substituiu os encontros presenciais — desaconselhados por aliados para evitar desgaste público — por uma ofensiva telefônica junto a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A manobra expõe uma preocupação meramente cosmética com a liturgia do cargo: evita-se o registro fotográfico, mas mantém-se a pressão de bastidores para discutir rumos políticos e questionar a condução da Justiça Eleitoral.
O alvo central da insatisfação presidencial é o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, a quem Lula atribui decisões que beneficiariam seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Há uma contradição evidente na postura do Planalto. Em 12 de outubro, o presidente cobrou publicamente isenção do magistrado, declarando que “o que não pode é o presidente da Suprema Corte Eleitoral ter lado na política”. A reação, porém, veio a reboque de decisões desfavoráveis ao canal de WhatsApp “Exército do Lula”, ligado ao deputado André Janones. Enquanto Nunes Marques rechaça acusações de favorecimento, a postura do presidente sugere que o rigor da Justiça Eleitoral passa a ser visto como parcialidade sempre que atinge aliados de sua campanha.
Mais do que tentar moldar o humor do Judiciário, os telefonemas escancararam a desorientação do próprio Executivo diante do resultado do primeiro turno, encerrado com uma liderança inesperada de Flávio Bolsonaro. Em vez de encontrar apenas ouvidos complacentes, Lula deparou-se com o desconforto de ministros do Supremo diante da desorganização do governo — especialmente no Ministério da Justiça — e da falta de respaldo político ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, isolado nos embates com o ministro André Mendonça e a campanha oposicionista. O quadro revela um governo que busca no comando do TSE um culpado externo para falhas de coordenação e erros estratégicos que nascem na própria Esplanada.
Ainda que o diálogo entre Poderes não configure, por si só, ilegalidade ou interferência comprovada nas decisões da Corte, o uso de conversas reservadas pelo presidente da República para se queixar do árbitro da eleição que ele mesmo disputa corrói a normalidade institucional. Quando o chefe do Executivo é candidato, a linha entre a interlocução republicana e a pressão política torna-se perigosamente tênue. A exigência de transparência e de respeito à independência do Judiciário não é um detalhe burocrático: a imparcialidade das instituições deve servir como regra permanente da democracia, e não como um argumento acionado apenas quando convém a quem ocupa o Palácio do Planalto.




