A poucos dias do segundo turno, panfleto distribuído em ato do candidato petista na Asa Norte induz eleitor ao voto nulo ao atribuir número errado a Celina Leão e escancara o desespero de uma campanha sem tração local.
A campanha da esquerda ao Governo do Distrito Federal (GDF), encabeçada por Leandro Grass (PT), chegou à última semana do segundo turno expondo uma contradição difícil de sustentar. Enquanto o discurso oficial nos palanques e nas redes sociais se apoia na bandeira da “defesa da democracia” e no combate implacável às chamadas fake news, a prática nas ruas de Brasília mostra que, quando as pesquisas apertam, o vale-tudo eleitoral fala mais alto.
O episódio mais recente — que já foi parar nas mãos do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) — ocorreu durante uma ação de campanha de Grass em uma universidade na Asa Norte. No local, militantes distribuíram um panfleto dividido em duas colunas: de um lado, “Lula e Leandro” com o número 13; do outro, “Flávio e Celina” acompanhados do número 22.
O problema não é apenas de revisão gráfica, mas de indução direta ao erro.
A armadilha do voto nulo
Enquanto o número 13 identifica corretamente tanto a candidatura presidencial petista quanto a de Leandro Grass ao Palácio do Buriti, o número 22 não pertence a nenhum candidato ao governo local. Celina Leão (PP), atual governadora e candidata à reeleição, concorre com o 11.
Na prática, o eleitor que levar a peça gráfica a sério e digitar o número 22 na urna eletrônica para o cargo de governador no próximo domingo (25/10) terá o seu voto anulado. Diante da gravidade do material, a coligação de Celina acionou a Justiça Eleitoral pedindo a suspensão imediata da distribuição e a busca e apreensão dos panfletos, inclusive nos comitês de campanha do PT. Procurada pela imprensa, a campanha de Grass preferiu o silêncio.
Hipocrisia e falta de projeto para o DF
O caso do panfleto apócrifo ou “equivocado” sintetiza três grandes falhas crônicas da estratégia esquerdista no Distrito Federal nestas eleições de 2026:
- Dois pesos, duas medidas sobre desinformação: A esquerda brasiliense construiu sua narrativa acusando adversários de manipular a opinião pública. No entanto, distribuir material impresso que confunde o eleitor sobre o número de urna da principal adversária é uma das formas mais arcaicas e diretas de desinformação eleitoral. Se o erro partisse do lado oposto, o episódio já estaria sendo tratado como um atentado ao processo democrático.
- A muleta da nacionalização forçada: Ao estampar “Lula e Leandro” contra “Flávio e Celina”, a campanha de Grass confessa sua incapacidade de debater os problemas reais do Distrito Federal — como saúde pública, transporte, segurança e geração de empregos. A tentativa desesperada de colar o número do PL (22) na candidata do PP (11) busca reduzir a eleição local a um plebiscito ideológico nacional, subestimando a capacidade do eleitor brasiliense de avaliar a gestão local.
- O reflexo do isolamento nas pesquisas: Com levantamentos recentes (como o do instituto Real Time Big Data) apontando Celina Leão com 59% dos votos válidos contra 41% de Grass, a campanha petista demonstra sinais claros de esgotamento. Sem conseguir furar a bolha além da militância universitária e do funcionalismo sindicalizado, a estratégia parece ter migrado do convencimento pelo voto a favor para a tentativa de anular o voto alheio.
No fim das contas, o episódio na Asa Norte deixa um recado claro ao eleitorado do Distrito Federal: para quem passou a campanha inteira dando lições de moral sobre ética na política, apelar para a confusão numérica na boca da urna não é apenas um tiro no pé — é o retrato de um projeto que já entrou no segundo turno sabendo que não tinha propostas suficientes para vencer no debate limpo.




