O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surpreendeu ao afirmar, durante sabatina ao Jornal Nacional, da TV Globo, nesta quinta-feira (15), que desconhecia a ausência de reajuste do Bolsa Família ao longo de seu terceiro mandato. Questionado sobre o aumento anunciado às vésperas das eleições, Lula reconheceu que só tomou conhecimento do problema recentemente. A declaração levantou questionamentos sobre o acompanhamento, pela Presidência da República, de um dos principais programas sociais do governo.
A situação ganha contornos ainda mais delicados porque a falta de correção não era novidade na administração federal. Em maio de 2025, o próprio Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social informou oficialmente que não havia decisão nem estudo em andamento para reajustar o benefício. Desde março de 2023, o valor mínimo permanecia em R$ 600 por família, embora o programa contemplasse pagamentos adicionais. A ausência de recomposição inflacionária por mais de três anos contrasta com a importância atribuída pelo presidente à política de transferência de renda.
O reajuste de 15,04% foi anunciado apenas em 17 de setembro de 2026, exatamente 17 dias antes do primeiro turno. A medida elevou o piso de R$ 600 para R$ 691, com pagamentos atualizados previstos a partir de 19 de outubro. Durante a entrevista, Lula negou motivação eleitoral e afirmou ter cobrado explicações dos ministros. Entretanto, a proximidade entre a decisão e a votação colocou o calendário do benefício no centro do debate político, sobretudo porque o aumento não constava da proposta orçamentária de 2027 encaminhada anteriormente ao Congresso.
A explicação presidencial deixa uma questão administrativa sem resposta: como o governo passou mais de três anos sem corrigir pela inflação o valor básico de seu principal programa de transferência de renda sem que Lula, segundo seu próprio relato, tivesse conhecimento? A determinação tardia do reajuste não elimina a necessidade de esclarecer por que a medida foi ignorada durante tanto tempo. Para milhões de famílias dependentes do benefício, a discussão vai além do discurso eleitoral: envolve a preservação do poder de compra e a responsabilidade da administração pública pelas decisões que afetam diretamente a população mais vulnerável.




