Aumento de imposto à vista: Grass quer que Brasília assine o cheque em branco do PT?
Leandro Grass disse ao CB Poder que precisa melhorar a arrecadação para investir e prometeu fazê-lo “sem penalizar o trabalhador, sem aumentar o custo”. Eu quero conhecer essa conta. Quanto dinheiro entrará, de onde virá e quando estará disponível? Prometer investimentos e reajustes rende aplausos, mas demonstrar como serão pagos exige mais trabalho — sobretudo quando quem financia a promessa é o contribuinte. A tese é simples: sem transparência sobre a origem dos recursos, a promessa de eficiência pode se transformar em aumento indireto da carga sobre a população.
Arrecadar mais pode resultar de crescimento econômico e combate à sonegação, sem aumento de impostos. Grass já apresentou desenvolvimento e revisão de renúncias fiscais como caminhos. Pois apresente quais benefícios pretende retirar, quanto espera recuperar e quais serão os possíveis efeitos sobre preços, empregos e investimentos. Minha crítica começa aí: uma promessa de preservar o bolso do trabalhador precisa sobreviver à planilha e aos efeitos concretos das escolhas fiscais. O eleitor merece mais que uma declaração tranquilizadora diante das câmeras; merece números, prazos e critérios que permitam verificar se a promessa é viável.
O governo Lula oferece motivos concretos para essa desconfiança, mas os números precisam ser lidos com precisão. Segundo a Receita Federal, a arrecadação federal somou R$ 2,65 trilhões em 2024, alta real de 9,62% em relação a 2023, já descontada a inflação. O resultado refletiu, entre outros fatores, o desempenho da atividade econômica e a retomada da tributação sobre combustíveis. Esse dado mostra aumento da receita arrecadada; não permite, sozinho, concluir que a carga tributária tenha subido na mesma proporção, porque também entram na conta o crescimento da economia, a inflação, mudanças de composição e ações de fiscalização.
No caso do IOF, a Receita Federal informou que a arrecadação do imposto alcançou R$ 86,48 bilhões em 2025, alta real de 20,54% sobre 2024. A data de referência é o ano-calendário de 2025, e a comparação é igualmente real, descontada a inflação. Nesse caso, as mudanças nas regras de cobrança determinadas pelo governo contribuíram para o avanço do recolhimento.
Ainda assim, é importante distinguir os conceitos: aumento da receita do IOF significa que o governo arrecadou mais com esse tributo; aumento da carga tributária significa que a arrecadação total de tributos cresceu em relação ao tamanho da economia, normalmente medida como proporção do PIB. Uma coisa pode contribuir para a outra, mas não são sinônimos. Para afirmar que houve aumento da carga, é preciso apresentar a série correspondente e sua relação com o PIB, não apenas o valor arrecadado ou sua variação percentual.
A expressão administrativa pode ser elegante, mas a consequência é concreta: quando a cobrança aumenta, o custo pode ser repassado a consumidores, empresas ou trabalhadores, conforme a operação atingida. Por isso, qualquer promessa de arrecadar mais precisa deixar claro se o resultado virá de crescimento, fiscalização, revisão de benefícios fiscais ou elevação de alíquotas e bases de cálculo — e quem efetivamente pagará a conta.
Eu não entregaria ao PT um cheque em branco embrulhado em promessa de eficiência. Grass precisa mostrar o custo de cada compromisso, detalhar a origem dos recursos e explicar o que fará se a receita esperada não aparecer: reduzirá despesas ou buscará mais tributos?
O histórico de Lula torna essa pergunta ainda mais necessária, mas a crítica deve separar aumento de arrecadação de aumento da carga tributária e indicar as fontes, os períodos e os critérios usados.
Neste segundo turno, o eleitor deve exigir essa resposta antes de votar. Depois da eleição, descobrir que a promessa tinha boleto não será apenas uma surpresa: será a confirmação de que faltou transparência quando ainda era possível escolher.
Por: Lucas Santana




