Celina e a rara ideia de governar sem inventar mais governo

Foto: Agência Brasília
Foto: Agência Brasília

Há uma espécie de vício antigo na política brasileira: diante de qualquer problema, aparece logo alguém disposto a criar uma secretaria, uma autarquia, um comitê, um conselho ou alguma estrutura com nome suficientemente pomposo para parecer solução. Depois vêm os cargos, a burocracia, o organograma colorido e, claro, a conta. Por isso, quando observo os planos dos principais candidatos ao Governo do Distrito Federal, uma diferença me chama especialmente a atenção: Celina Leão é a única que, até aqui, não apresenta como novidade a criação de mais uma estrutura administrativa.

José Roberto Arruda propõe um Centro de Coordenação do Governo. A nomenclatura é sofisticada, quase cinematográfica. Mas convenhamos: governo já não deveria, por definição, ser coordenado? Se for preciso criar um órgão para coordenar quem deveria estar coordenando, talvez estejamos diante daquele velho método brasiliense de resolver a burocracia com… mais burocracia.

Leandro Grass segue por outro caminho e propõe uma Secretaria Executiva de Proteção Animal. Ricardo Cappelli, por sua vez, fala na criação da Emater-DF e também de uma Secretaria de Cultura. São propostas que podem ter suas justificativas e seus públicos, naturalmente. A questão que me interessa é outra: toda nova caixinha desenhada no organograma do Estado precisa provar que produzirá mais resultado do que despesa, mais política pública do que estrutura política.

Celina parece partir de uma lógica diferente. Em vez de inaugurar secretarias, pretende trabalhar com aquilo que o Distrito Federal já possui. Pode parecer pouco vistoso numa campanha eleitoral — afinal, ninguém corta fita na inauguração de um organograma que não nasceu —, mas talvez exista aí uma virtude administrativa bastante esquecida: governar melhor antes de governar maior.

A política adora confundir expansão com eficiência. Não são sinônimos. Um governo não se torna necessariamente mais sensível porque possui mais secretarias, nem mais competente porque multiplica estruturas. Às vezes, acontece justamente o contrário: cresce o Estado, diminui a responsabilidade e ninguém mais sabe exatamente quem deveria entregar o resultado.

Entre candidatos que apresentam novas gavetas para guardar os problemas, Celina, pelo menos nesse ponto, sugere outra pergunta: e se, antes de comprar mais armários, o governo simplesmente organizasse a casa? Em Brasília, onde a burocracia já possui endereço, sigla e estacionamento próprio, talvez não seja uma ideia tão pequena assim.

Por:: LUCAS Santana – Jornalista 

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