O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) teve R$ 1,7 milhão em emendas parlamentares executadas, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, na compra de produtos de três cooperativas ligadas ao MST no Paraná — estado que concentra a base eleitoral de Gleisi Hoffmann. O montante associado aos fornecedores paranaenses foi 2,5 vezes superior aos R$ 680 mil aplicados na agricultura familiar do Rio de Janeiro, unidade da Federação pela qual o parlamentar foi eleito.
A maior parcela, de R$ 1,06 milhão, chegou à Cooperativa de Comercialização Camponesa Vale do Ivaí, a Cocavi, instalada no Assentamento Oito de Abril, em Jardim Alegre. Outros R$ 374 mil foram para a Coprari, em Centenário do Sul, e R$ 260 mil para a Copacon, em Londrina. No curioso mapa petista do dinheiro público, o mandato está no Rio, mas a maior rota das compras terminou justamente no território político de Gleisi.
O episódio aumenta a pressão por transparência sobre as emendas. O ministro Flávio Dino já determinou que parlamentares não façam indicações diretas para estados diferentes daqueles pelos quais foram eleitos, buscando evitar favorecimentos e desvios de finalidade. Oficialmente, o PAA permite que a Conab compre alimentos de cooperativas por chamadas públicas e seguindo critérios técnicos. O caso, portanto, não comprova ilegalidade, mas deixa uma coincidência política graúda demais para ser tratada como simples detalhe administrativo. O debate é semelhante ao levantado quando o governo Lula liberou R$ 200 milhões em emendas para integrantes da CPMI do INSS.
Lindbergh nega ter escolhido ou favorecido as cooperativas. Segundo o deputado, a emenda foi destinada ao PAA para atender famílias vulneráveis do Rio, enquanto a seleção dos fornecedores teria sido realizada exclusivamente pela Conab. A explicação precisa ser considerada, mas não elimina a necessidade de esclarecer por que tamanha fatia dos recursos vinculados ao parlamentar terminou em organizações do Paraná. Em Brasília, como mostrou também a liberação de R$ 12 bilhões em emendas durante a articulação pela indicação de Jorge Messias, coincidências orçamentárias costumam chegar acompanhadas de muitos zeros.




