UE diz que Brasil ignorou alerta e deixou veto à carne virar crise

Foto: Presidência da República
Foto: Presidência da República

A União Europeia afirmou que o Brasil teve tempo, informação e capacidade para evitar o veto europeu à importação de carne e outros produtos de origem animal, mas não apresentou as garantias exigidas pelo bloco sobre o uso de antimicrobianos na cadeia produtiva.

A avaliação foi feita por Olof Gill, porta-voz da União Europeia para comércio, em entrevista à Folha de S.Paulo. Segundo ele, Bruxelas vinha cobrando há “três ou quatro anos” evidências de que os produtos brasileiros destinados ao mercado europeu cumpriam os padrões de segurança alimentar e saúde animal exigidos pelo bloco. “O Brasil não fez isso até agora”, afirmou Gill.

A decisão europeia foi formalizada no Diário Oficial da União Europeia e passa a valer em 3 de setembro de 2026. O veto atinge carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil, segundo a publicação oficial repercutida pela Agência Brasil.

O ponto central da restrição não é uma acusação direta de contaminação da carne brasileira, mas a falta de comprovação documental, rastreabilidade e certificação de que os animais não receberam substâncias proibidas pelas regras europeias durante todo o ciclo produtivo. Na prática, a União Europeia fechou a porteira porque entendeu que o Brasil não conseguiu provar o que precisava provar. Burocracia? Sim. Mas burocracia com carimbo, prazo e prejuízo.

O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou, em abril, a Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026, proibindo em todo o território nacional a importação, fabricação, comercialização e uso de aditivos melhoradores de desempenho que contenham antimicrobianos considerados importantes para a medicina humana ou veterinária. A própria pasta informou que a medida busca alinhar o Brasil a recomendações internacionais de combate à resistência antimicrobiana.

A reação, no entanto, não foi suficiente para convencer Bruxelas. A União Europeia sustenta que o Brasil precisa demonstrar conformidade em toda a cadeia, e não apenas editar regras internas. O bloco europeu exige garantias verificáveis sobre o uso de medicamentos veterinários, especialmente os antimicrobianos utilizados como promotores de crescimento ou produtividade animal.

O governo brasileiro também mantém o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes, o PNCRC/Animal, ferramenta oficial do Mapa para monitorar resíduos químicos em alimentos de origem animal. O programa prevê amostragens, testes laboratoriais, rastreabilidade da propriedade de origem e medidas administrativas em caso de violação.

Mesmo assim, a crise expôs um descompasso entre o sistema brasileiro de defesa agropecuária e a exigência documental europeia. Para os europeus, não basta afirmar que há controle. É preciso comprovar, produto por produto, cadeia por cadeia, que as exigências sanitárias foram atendidas.

O caso chega em momento sensível para a relação comercial entre Mercosul e União Europeia. Gill, porém, disse não acreditar que o atrito inviabilize o acordo entre os blocos. Para ele, o Brasil tem “capacidade industrial, conhecimento e poder econômico” para atender aos parâmetros europeus.

Nos bastidores, a mensagem política é dura para o governo brasileiro: o país foi avisado, teve prazo e agora corre atrás do prejuízo. A carne brasileira segue reconhecida em diversos mercados internacionais, mas, diante da União Europeia, o problema passou a ser menos de discurso e mais de prova.

Para reverter o veto, o Brasil terá de apresentar garantias adicionais, ampliar mecanismos de rastreabilidade e convencer tecnicamente a Comissão Europeia de que sua cadeia produtiva atende integralmente às novas regras. Até lá, o setor exportador ficará diante de uma conta salgada — e, desta vez, não por falta de boi no pasto, mas por falta de papel aceito em Bruxelas.

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