A crise da Volkswagen ganhou um novo capítulo na Alemanha. A maior montadora da Europa avalia permitir que fabricantes chinesas de veículos elétricos utilizem parte de suas linhas de produção ociosas no país, em especial na fábrica de Zwickau, no estado da Saxônia. A medida, antes tratada como tabu pela indústria alemã, passou a ser discutida como alternativa para preservar empregos, reduzir capacidade parada e enfrentar a pressão dos carros elétricos chineses.
Segundo o jornal alemão Handelsblatt, a direção da Volkswagen mantém conversas sobre possíveis cooperações com montadoras chinesas desde 2024. A ideia seria usar estruturas já instaladas na Alemanha para produzir veículos elétricos em parceria, possivelmente por meio de uma joint venture. Na prática, seria uma tentativa de transformar fábricas subutilizadas em fonte de receita e sobrevivência industrial.
O caso mais citado é o da planta de Zwickau, convertida nos últimos anos para a produção de carros totalmente elétricos, como o Volkswagen ID.3 e o Audi Q4 e-tron. A unidade, que empregava cerca de 8 mil pessoas ao fim do ano passado, enfrenta baixa utilização em meio à desaceleração da demanda por elétricos e à concorrência mais agressiva de marcas chinesas.
O ministro da Economia da Saxônia, Dirk Panter, defendeu publicamente a aproximação com a China. Para ele, é melhor preservar a competência industrial e os empregos na região do que manter uma disputa perdida por razões ideológicas. A declaração resume o dilema europeu: resistir aos chineses ou dividir o chão de fábrica com eles. Convenhamos, para a velha indústria alemã, é quase como convidar o concorrente para estacionar na garagem.
A discussão ocorre em meio a uma forte reestruturação da Volkswagen. O grupo informou que seu resultado operacional caiu para € 8,9 bilhões em 2025, uma retração de 53% em relação ao ano anterior. A margem operacional também recuou para 2,8%, enquanto a companhia tenta recuperar competitividade em um mercado pressionado por custos altos, tarifas, transição elétrica e queda de rentabilidade.
A montadora também colocou em andamento um plano de redução de custos que pode alcançar dezenas de milhares de postos de trabalho até 2030. A pressão vem de vários lados: a China avançou nos veículos elétricos com preços menores, os Estados Unidos impuseram novas barreiras comerciais e o consumidor europeu ainda demonstra cautela diante da troca definitiva dos modelos a combustão pelos elétricos.
Para a Alemanha, o tema tem peso político e simbólico. A Volkswagen é um dos maiores ícones industriais do país. Ver fábricas alemãs produzindo carros de marcas chinesas seria um sinal claro de mudança na ordem global do setor automotivo. A Europa, que por décadas ensinou o mundo a fabricar carros, agora tenta não ficar para trás na corrida elétrica.
Ainda não há decisão final. A proposta dependeria de acordos comerciais, regras trabalhistas, padrões europeus de produção e garantias de preservação de empregos. Mas o simples fato de a hipótese estar sobre a mesa mostra o tamanho da crise: a Volkswagen já não discute apenas como vender mais carros, mas como manter suas fábricas vivas em um mercado que mudou mais rápido do que Wolfsburg gostaria de admitir.
Fontes consultadas: InfoMoney, Folha/DW, Reuters, Handelsblatt, Bild e Volkswagen Group.
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