Desfile de Carnaval em homenagem a Lula foi uma despedida e ninguém percebeu

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Foto: Ricardo Stuckert/PR

O desfile em homenagem a Lula no Carnaval não foi apenas uma celebração cultural. Foi um ato político com cálculo, risco e mensagem. E pode ter representado algo maior: a construção de uma saída antecipada da cena eleitoral.

Em ano eleitoral, com alertas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre exposição indevida, Lula escolheu ir à avenida. Horário nobre, enredo vencedor, artistas, narrativa heroica. Nada disso é acidental. Em política, excesso também comunica.

O ponto central não é se o desfile foi bonito ou legítimo como manifestação cultural. O ponto é outro: Lula assumiu conscientemente o risco jurídico e político de ser acusado de propaganda antecipada e abuso de poder.

E isso abre duas leituras possíveis.

A primeira é a mais óbvia: Lula apostou que não será punido. Que o sistema jurídico não levará adiante qualquer questionamento capaz de afetar sua elegibilidade. Nesse cenário, o desfile funciona como reforço simbólico de imagem num momento de rejeição crescente.

Mas há uma segunda leitura, mais fria e mais estratégica: Lula já afirmou, em diferentes momentos, que não pretende disputar as eleições de 2026. O problema é que ele não pode simplesmente anunciar a saída. Isso soaria como abandono, fraqueza ou confissão de desgaste. Um líder não se retira dizendo “cansei”.

Então surge a alternativa clássica da política: não sair porque quis, mas porque foi impedido.

Se o episódio do Carnaval fosse enquadrado juridicamente como irregular, Lula não deixaria a disputa como derrotado. Deixaria como injustiçado. E, na política, o injustiçado não perde, ele vira símbolo.

Essa lógica preserva o legado e abre espaço para a sucessão. O herdeiro político não entra como alguém fraco, mas como continuidade de uma “obra interrompida”. Não é substituição. É missão.

O desfile, nesse contexto, funciona como cena final: Lula no auge simbólico, celebrado, vitorioso, antes que o desgaste econômico, político e institucional transforme o capital acumulado em risco eleitoral real.

Há ainda um fator decisivo: Lula não pode correr o risco de perder. Nem para adversários diretos, nem para o próprio desgaste do governo. Uma derrota eleitoral encerraria sua trajetória de forma comum. Uma saída “interrompida” a encerra como exceção histórica.

Enquanto o debate público se perde em bateria, fantasia e verba cultural, o movimento relevante acontece em outro plano: o da narrativa de legado.

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