Porque o PT não quer a CPI do Banco Master

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Se o caso Banco Master é grande o bastante para virar slogan de palanque  “golpe bilionário”, “escândalo histórico”, “fraude sem precedentes,” a pergunta que sobra é simples e incômoda: por que o partido do governo não corre para assinar a CPI?

Aqui entra a política no modo mais puro: a esquerda tenta manter o caso no terreno da retórica, não no terreno do rito.
Porque CPI não é postagem. É convocação, acareação, quebra de sigilo, depoimento sob holofotes e, principalmente, imprevisibilidade.

E um escândalo imprevisível é exatamente o que o Planalto não quer.

O reframing de Lula: denunciar sem dar nome é uma estratégia clássica quando crises ameaçam encostar no centro do poder: reconhecer o problema, mas não personificar o problema. No caso Master, falou em “um cidadão” que teria dado um golpe bilionário, mas evitou citar Daniel Vorcaro.

Essa escolha tem função.

Quando você não diz o nome, você desloca o foco do “quem” para o “o quê”.
O “quem” puxa conexões.
O “o quê” vira conceito: crime organizado, sistema financeiro, estrutura paralela, fraude.

Ou seja: um caso com personagem vira um caso com atmosfera. E atmosférico não dá impeachment em ninguém do topo.

O discurso pode até ser de indignação, mas CPI tem um detalhe: ela não escolhe o caminho da investigação com o controle que a política gostaria.
Ela abre portas para: revelar interlocuções de bastidor; expor redes de influência; mapear quem apresentou quem a quem; vasculhar contratos, reuniões, viagens, intermediários e, no pior cenário, produzir prova política antes da prova judicial.

A CPI é o oposto do conforto narrativo. Ela não “condena o inimigo” e pronto. Ela obriga o país a assistir perguntas que ninguém quer responder.

Para o PT, o risco é óbvio: uma CPI do Master tende a olhar para cima.
E olhar para cima, nesse caso, significa: Brasília em sentido amplo: governo, Congresso, Judiciário, mercado.

Enquanto a oposição no DF protocolou pedido de impeachment contra Ibaneis, a Revista Oeste divulgou os nomes dos deputados que votaram a favor da CPI e dos mais de 60 parlamentares do PT apenas um votou pelo prosseguimento do pedido de CPMI/CPI.

E mesmo sem entrar no “placar” do dia, que pode mudar o efeito político já está dado: o silêncio vira evidência retórica.
Porque, para o público, a lógica é simples: “Se é tão grave, por que não querem investigar a fundo?”

Essa contradição funciona como um espelho: de um lado, discurso indignado; do outro, resistência ao instrumento mais barulhento de apuração.

A razão real: controle de dano. No fundo, o raciocínio é pragmático.

O governo pode até sobreviver à indignação genérica.
Mas pode não sobreviver à cadeia de associações que uma CPI produz.

E aqui entra o ponto que explica o “não citar nomes”.

Uma CPI é, por definição, o lugar onde nomes aparecem. Ela cria narrativa com personagens, datas, valores, conexões. E esse tipo de narrativa tem força própria: ela não precisa ser condenação judicial para virar condenação pública.

Quando vira CPI nacional, ela se espalha e vira risco sistêmico: “quem abriu portas?”, “quem ofereceu proteção?”, “quem fez ponte?”, “quem intermediou?”

É por isso que, do ponto de vista do Planalto, é mais seguro que o caso seja discutido como ‘fato político local’ do que como ‘crise nacional com rede de influência’.

O silêncio como método, não como acaso, Lula já mostrou em outras crises que sabe usar o silêncio como arma. Ele fala do fenômeno e evita o personagem. Ele denuncia a consequência e evita o nome. Ele transforma um conflito com rostos em uma disputa abstrata de narrativas.

Comentários

Políticas de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.